Bruna Schelb e Luis Bocchino lançam o curta “Olho além do ouvido”

Produção selecionada para o festival Cinefantasy faz parte de uma trilogia inspirada nos dias atuais

“Olho além do ouvido” é fábula sobre uma terra em que as pessoas preferem fechar os olhos para o conhecimento (Foto: Luis Bocchino/Divulgação)

O ser humano nunca teve tanto acesso à informação quanto nas últimas décadas. Infelizmente, isso não quer dizer que as pessoas se tornaram mais esclarecidas, melhor informadas ou mais questionadoras: o que se vê por aí é muita gente que troca os fatos pela “opinião”, que acredita apenas na notícia que está de acordo com seu ponto de vista ou prefere viver em negação, fechar os olhos para os fatos e a realidade. E quem sofre com essa cultura da ignorância são os pesquisadores, os professores, boa parte da imprensa.

É sobre essa realidade que trata o curta-metragem “Olho além do ouvido”, dirigido por Bruna Schelb Corrêa e Luis Bocchino, selecionado para a 12ª edição do Cinefantasy – Festival Internacional de Cinema Fantástico, que teve início na última quinta-feira (9) e prossegue até o próximo dia 19. A programação do festival pode ser conferida em cinefantasy.com.br. A produção também foi indicada para o 25º FAM (Florianópolis Audiovisual Mercosul), que acontece entre os dias 23 e 29 de setembro.

O curta – realizado com recursos da Lei Aldir Blanc de Minas Gerais – é uma fábula com toques de ficção científica e distopia. A protagonista é a Menina, uma pesquisadora que vive num local chamado Terra Pequena, que há muitas gerações decidiu que todos ficariam com os olhos fechados, por considerarem ser mais seguro viver assim. Dessa forma, toda a transmissão de conhecimento pela forma escrita deixou de existir, com a informação sendo transmitida apenas de forma oral, que pode ser distorcida à medida que passa de uma pessoa para outra e impossível de ser checada.

Um dia, porém, um acontecimento faz com que a protagonista abra os olhos e, a partir daí, passe a tomar conhecimento de coisas que não imaginava existir, alterando sua percepção do mundo e criando o desejo de dividir esse conhecimento com seu povo, que ainda vive preso às trevas da ignorância, principalmente quando encontra um livro e uma professora que ajuda a jovem a aprender a ler.

Home office da sétima arte

Bruna e Luis contam que “Olho além do ouvido” foi todo filmado em apenas um cômodo da casa onde moram, em Juiz de Fora, usando um “pano infinito” para criar os diversos cenários que aparecem no curta. O filme faz parte do que eles batizaram de “Trilogia do Papelão”, sendo que ele é, na verdade, a segunda das três produções – a primeira parte, “Temos muito tempo para envelhecer”, ainda não foi lançado porque terá distribuição internacional.

“Os três filmes tratam desse momento que temos vivido. Sempre que escrevo um roteiro, penso em como fazer uma história que não seja redundante, pois acho que o cinema pode chamar a pessoa para o diálogo de uma forma mais lúdica, e é o que tentamos fazer nesses três filmes”, diz Bruna. “‘Temos muito tempo para envelhecer’ fala sobre isolamento, sobre como nos fechamos e não percebemos como o tempo passa, e em ‘Olho além do ouvido’ quisemos explorar a questão de como não queremos acreditar em certas coisas, que podemos ir atrás da informação, mas não vamos. O terceiro filme, ‘Boa sorte e até breve’, já está sendo finalizado.”

“O filme trata dessa questão da negação ao acesso à informação, negação à ciência, de estarmos num contexto de pandemia em que temos acesso à informação científica e vermos o embate na sociedade entre as pessoas que acreditam e aquelas que se negam”, reforça Luis Bocchino. Originária de uma família de professoras – e ela própria pesquisadora na UFJF –, Bruna destaca que colocar a pesquisadora e a professora como protagonistas da história é uma forma de homenagear as duas profissões que – na opinião da diretora – “seguram o país nas costas”. “E, de certa forma, também é uma homenagem aos profissionais da imprensa, que são figuras que estão numa cruzada para nos ajudar a atravessar esse momento.”
Bruna Schelb e Luis Bocchino dirigem o curta, que faz parte da série que batizaram de “trilogia do papelão” (Foto: Divulgação)

Orgulho da ignorância

A história do curta trata da importância do acesso à informação, da leitura, da busca de fontes confiáveis de conhecimento, sendo que o panorama atual é povoado por pessoas que fecham os olhos para esse conhecimento e tratam o trabalho de professores e pesquisadores como se fosse uma atividade criminosa. Perguntada sobre os motivos de termos chegado a esse ponto, a diretora tem um ponto de vista bem específico.

“Acho que essa situação que observamos vem do fato de que estudar dá trabalho, mas muitos acham que não dá, que professor é vagabundo. E a partir disso existe uma situação de animosidade com as instituições federais, por exemplo. É um orgulho da ignorância, mas também medo do outro que sabe. É impressionante você tentar explicar algo para uma pessoa que não quer te ouvir.”

“Vivemos em um tempo em que as pessoas estão com pouca disposição para ouvir o outro. As mídias sociais e aplicativos de mensagens dão a impressão que o conhecimento raso, a manchete, a mensagem resumida, são um conhecimento compacto, sendo que por trás temos pessoas que trabalham para criar esse conhecimento”, pontua Luis, que ressalta que a grande maioria das pessoas não está qualificada para dar opiniões sobre ciências políticas e infectologia, por exemplo, mas…

“Essas redes sociais nos dão voz como se estivéssemos no mesmo patamar, como se todo ponto de vista tivesse que ser levado em conta, sendo que os métodos científicos não têm a ver com a opinião do cientista, são resultados de pesquisa. Ainda estamos aprendendo a lidar com essa capacidade de dialogar de maneira eletrônica.”

À distância

Para a produção de “Olho além do ouvido”, Bruna e Luis trabalharam sozinhos em casa, tendo que realizar todas as funções do set. Todo o restante do pessoal envolvido na produção (Pedro BAAPZ, Silas Mendes e Caio Deziderio, entre outros) participou do projeto à distância. Luis acredita que essa dinâmica influenciou o resultado final. “Quando temos que centralizar as decisões, o filme fica muito com a nossa visão. Esse jeito de fazer filme em dupla é algo que desejamos que seja temporário, pois não vemos a hora de poder juntar o pessoal e ter de novo essa experiência de criação coletiva. O ambiente de set é quase mágico, com várias mãos que constroem aquela história.”

Por Júlio Black/TribunadeMinas

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *