Pandemia impulsiona jovens mineiras a estrear como escritoras

Com mais tempo para se dedicar à escrita e editais de apoio à publicação de obras, autoras levam para o papel projetos que já cultivavam

As personagens Alice e Andréia já interagiam na imaginação da jornalista Amanda Magalhães há muito tempo. Porém, foi nesses últimos meses, quando o mundo parou por causa da COVID-19, que as duas finalmente saltaram para o papel, transformando Amanda em autora.

O recente lançamento do romance “Do verbo corresponder e o que vem antes” é um entre vários exemplos da estreia de uma autora mineira durante a pandemia. É possível explicar a nova safra pela maior oferta de tempo disponível em casa na quarentena. Ou ainda pelo fato de a escrita ser um alívio num cenário tão angustiante.

Em alguns casos, editais públicos em apoio à produção cultural no período pandêmico foram o empurrão que faltava. Em outros, foi a soma desses fatores.

Com dias mais solitários na pandemia, Amanda Magalhães, de 25 anos, pôde inscrever-se em cursos e oficinas virtuais de escrita. “Já tinha uma história na minha cabeça. Duas personagens, que eu sabia que uma hora iam querer sair para o papel. Foram anos pensando como seria. Nunca foi algo de ‘agora vou parar e criar’. Ia surgindo no dia a dia, no trânsito, ao ver um filme, vinha uma nova inspiração. Tinha várias cenas dessas personagens, parar e organizar é que foi complicado”, diz ela.

Em setembro de 2020, Amanda finalmente começou a escrever o que define como “um romance fragmentado em pequenos contos”, sobre um casal formado por Andréia e Alice. As personagens trocam correspondências tentando restabelecer uma conexão passada. A primeira parte do livro é epistolar. A segunda apresenta contos que contextualizam os acontecimentos anteriores. Daí o título “Do verbo corresponder e o que vem antes”. “É uma história de amor e poesia entre essas duas mulheres”, afirma a autora.

A trama é suavemente permeada pelo cenário sócio-político atual do Brasil. Lançado pela Urutau, o livro faz parte da coleção MilTons, dedicada a promover a representatividade LGBT+. Amanda Magalhães concluiu sua história apenas um mês depois de começá-la. Em paralelo, escreveu também sua dissertação de mestrado em comunicação e temporalidade pela UFOP.

Pouco depois de concluir seu livro, a escritora viu que Urutau lançou edital para publicações em resposta a uma declaração homofóbica do ministro da Educação Milton Ribeiro, que associou o “homossexualismo” (sic) a “famílias desajustadas”. Amanda se inscreveu no edital e seu livro foi um dos 15 títulos selecionados para a coleção MilTons, lançada em março passado.

    Amanda Magalhães afirma que a história que contou em livro “ia surgindo no dia a dia, no trânsito, ao ver um filme”
CRÔNICAS 

Os meses de pandemia também foram a oportunidade para rever trabalhos do passado. Malu Almeida, de 30 anos, reuniu crônicas e outros textos escritos anteriormente à crise sanitária no livro “Como um dia de domingo”, lançado neste mês.

Em 2017, Malu chegou a organizar uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a publicação, mas a empreitada não se concluiu. Graças ao edital da Lei Aldir Blanc, lançado no ano passado, o projeto se concretizou, como publicação independente.

“Com a pandemia, tive mais tempo para cuidar da produção do livro. Contei com ajuda de outras profissionais com mais experiência na edição e produção e nesse novo ritmo de vida, de 2020 para cá, foi possível me dedicar mais”, diz Malu, que é jornalista, publicitária e agora autora.

“Comecei a escrever em 2013. As jornadas de junho tinham acabado de acontecer e depois entramos num período muito conturbado do Brasil”, lembra. “Foi uma fase pessoal em que eu procurava um lugar para onde retornar. Tinha voltado de um intercâmbio, ainda meio perdida, no fim da faculdade também. Um momento em que a gente se vê meio sem referência. Comecei a escrever sobre coisas que me atingiam em algum nível, situações cotidianas e outras mais gerais, que atingiam não só a mim.”

O livro é dividido em três partes. Em “Fins”, que curiosamente é a primeira, Malu se expressa sobre a finitude de certas coisas que atravessam o dia a dia, como o fim do expediente, o fim de semana ou o fim do carnaval.

“Retratos” traz pequenos perfis de personagens importantes para sua afetividade. “São textos sobre pessoas que fazem parte da minha vida. Às vezes feitos como forma de presenteá-las, às vezes como forma de entender quem elas são para mim.” “Meios” encerra o livro com crônicas sobre “o que há de mais corriqueiro na vida”, como define o texto introdutório.

O resultado desse conjunto é uma obra sobre “a relação que temos com o tempo, sobre estar à toa, sobre os momentos de lazer”, define a autora. “É um livro calmo, relaxante, para ler devagar, sem esforço. Não é um livro reflexivo, nem de palavras difíceis. É como se fosse um próprio domingo, por isso esse título.”

Malu comenta que “‘Como um dia de domingo’ vem num momento em que quero orientar minha carreira para a escrita. É um livro que está registrado na Biblioteca Nacional, tem código de barras, vai entrar em livrarias… É algo que realmente alavanca minha carreira de escritora”.

  • “Tinha a percepção de que (na pandemia) minha vida era só trabalhar e isso me frustrava muito”, diz a autora Nina Rocha
EXERCÍCIO 

O edital da lei Aldir Blanc também possibilitou que Nina Rocha, de 28 anos, lançasse “Papéis”. Trata-se de seu segundo livro, embora ela também tenha feito sua estreia como autora durante a pandemia. Em 2020, Nina reuniu uma série de poemas inspirados nas paisagens urbanas de BH e se inscreveu em um edital da Urutau dedicado ao estilo. A aprovação resultou na coletânea “Em obras”, lançada no segundo semestre.

“Papéis” é composto por 16 contos, que ela diz ter escrito como um mero “exercício criativo”. A publicação começou a tomar forma quando Nina percebeu uma conexão entre eles e decidiu se inscrever no edital público em que foi aprovada.

“Não foi um processo muito consciente de fazer um livro na pandemia. Foi uma coisa de válvula de escape. Escrevia para me divertir e ter um registro do que eu notava ao meu redor, aproveitando situações bizarras e inusitadas como pano de fundo para criar narrativas com pessoas reais ou não”, diz ela.

Um exemplo é o conto “Estados Unidos de Governador Valadares”, inspirado no caso real de um outdoor visto em Governador Valadares em apoio à candidatura de Donald Trump à reeleição americana. “Parto do pressuposto de que todo lugar que a gente olha tem uma história legal para ser contada, mas nem sempre percebemos isso, seja pela correria, ou por um dia de mau humor. Meu processo de criar esses contos foi de conseguir deslocar meu olhar para encontrar nos detalhes cotidianos esses gatilhos criativos.”

Em “Tombai e comei” ela conta sobre dois caminhoneiros que se tornam rivais por carregarem em seus veículos placas referentes a diferentes religiões. Um espírita e outro, cristão. Nascida em Montes Claros, Nina diz que a inspiração veio de um caminhão que viu na BR-135, trafegando com uma placa de Allan Kardec, quando viajava de sua cidade para BH.

A escritora diz que conciliar a feitura dos livros com outras atividades na quarentena não foi fácil. “Nos primeiros meses da pandemia, fiquei muito angustiada. Tinha a percepção de que minha vida era só trabalhar e isso me frustrava muito. Participei de oficinas virtuais de escrita e isso me obrigou a me movimentar e criar espaço na minha rotina.”

Ela destaca que os trâmites ligados à produção editorial ficaram mais lentos na pandemia e que é preciso se adaptar a isso. “Não adianta ter urgência para criar e produzir com o mundo colapsando lá fora. Se fosse a vacina, tudo bem acelerar, mas é só um livro. É preciso respeitar o tempo de escrita, de revisão, de diagramação. Estamos todos esgotados com notícias ruins, exaustos do contato virtual. E, independentemente de pandemia, é difícil pegar uma ideia e transformá-la em um material concreto.”

Para quem pretende materializar o sonho da primeira publicação própria, uma oportunidade é o concurso Poesia Incrível, da Crivo Editorial, financiado com recursos da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte. As inscrições vão até a próxima quinta (27/5). O primeiro lugar ganhará a publicação de mil exemplares e um prêmio no valor de R$ 2,5 mil. O segundo lugar terá 500 exemplares impressos e R$ 1,5 mil como premiação.

“Como um dia de domingo”

.Malu Almeida
.Independente (176 págs.)
.R$ 30
.Venda: ww.malualmeida.oncartx.io/

TRECHO
“Ei, moço, não deixa a vagabundagem morrer! Ela faz bem pro coração, esvazia a cabeça e alivia os pulmões. Moço, vem andar comigo em alguma rua vazia até a gente encontrar algum boteco copo-sujo, com um vira-lata deitado ao lado e uma turma de velhos amigos tocando tamborim”.

“Do verbo corresponder e o que vem antes”

.Editora Urutau (96 págs.)
.R$ 40
.Vendas: www.editoraurutau.com.br.

TRECHO

“deia.aroeira90@email.com para: madeiro88alice@email.com
Quando foi que paramos de trocar correspondências?
você sabe, eu tenho essa coisa de palavras demais, soltas um tanto, que volta e meia me escorrem os dedos. decidi escrever um livro novo esses dias, mas são letras demais que não me descem a garganta, nem saem pro papel. nunca sai! digo, o livro. você falaria que é puro drama e, de fato, você me conhece. ou não, não sei. consigo ficar em casa sem usar sutiã, agora.”

“Papéis”

.Nina Rocha
.Independente (112 págs.)
.R$ 52
.Vendas: www./nina-rocha.oncartx.io/
TRECHO

“No meio do café da tarde, esbravejou que não confiava em quem acreditava em espíritos e, desde então, a troca de indiretas, farpas e cutucadas entre os dois tornaram-se persistentes. Um zombava da reencarnação, enquanto o outro fazia chacota dos rituais de possessão. O encontro entre José e Nelson, onde quer que acontecesse – na estrada ou no pátio da empresa –, era momento certo de tensão”.

Fonte: Estado de Minas

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