Um mineiro exemplar

‘Estou falando de Luiz Ruffato, o escritor de Cataguases, o filho do pipoqueiro e um dos maiores estetas da língua portuguesa.’

Eu parei para pensar qual foi o primeiro mineiro que eu conheci. Não me lembrei, evidente. Não há como cometer essa injustiça com a memória.
Não precisei de esforço para buscar qual foi o mineiro fundador do modo carinhoso que enxergo os mineiros, o primeiro mineiro que me acolheu, o primeiro que foi o meu amigo, o primeiro que me incentivou, o primeiro que, depois de longa conversa, cheguei à conclusão de que “só tinha gente fina no Estado”, o primeiro que foi o portal de esperança dos Gerais, o primeiro que plantou a ideia de que morar aqui é bão, o primeiro que me encantou com o sotaque a ponto de um dia me inspirar a residir em Minas e me casar com uma mineira.
Estou falando de Luiz Ruffato, o escritor de Cataguases, o filho do pipoqueiro e um dos maiores estetas da língua portuguesa. Ele é o sinônimo da simplicidade que admiro. Invejo a sua força de vontade, a sua tenacidade profissional, a sua teimosia em não aceitar a derrota.
Seu perfil carrega o ferro da alma, a discrição firme das montanhas e a brisa amnésica da ternura. Encontro nele todas as valiosas mineiridades que não canso de exaltar.
O que ele se tornou se deu exclusivamente por conta própria. Não desfrutou de vantagem, de pistolão, de influência, de atalho, de indicações. Saiu de baixo, do mais rasteiro chão vermelho. De livro, em sua infância, somente existia a Bíblia. Com pais semianalfabetos, acabou alcançando o inédito curso superior. Ninguém conseguiu antes.
Foi vendedor de quebra-queixo, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil (do setor de algodão hidrófilo), torneiro-mecânico, jornalista, sócio de uma assessoria de imprensa, gerente de lanchonete, vendedor de livros autônomo. Ao se despedir de sua cidade natal e tentar a sorte nas metrópoles, continuou a enviar parte do seu salário para a casa, em envelopes mensais. Mesmo sem pais vivos, segue ajudando os seus irmãos.
Nunca mudou, nunca renunciou a humildade, nunca reclamou do pesado da dor e da privação. Perdeu a sua esposa e criou sozinho a sua filha Helena.
Apesar de tudo, acha que ele me narra as suas angústias? Jamais, fiquei sabendo pelos outros. Não repisa as feridas. Não se coloca no papel de vítima. Para o mineiro, o sofrimento, ainda que tenha sido ontem, é sempre vida passada.
Ao prosearmos juntos, desandamos a rir, na leveza de causos e piadas dos últimos acontecimentos. Quem não acompanhou a sua história pregressa vai jurar que não passou por nenhum perrengue.
Alguns até acreditam que ele está rico, pois é um dos nossos autores mais traduzidos, vive viajando e realizando palestras na Europa, na Ásia e na África, com o passaporte tão carimbado quanto a carteira de trabalho.
Mal desconfiam que ele é espartano e contido, como se fosse ainda um adolescente aspirante às Letras com três mudas de roupa na bagagem.
Quando está no exterior, economiza tudo o que pode para trazer à sua família. Não encontrará nenhuma foto dele fazendo turismo, alguma selfie nos pontos turísticos mais celebrados do mundo. Nem tem redes sociais. Não esnoba porque entende que o trabalho serve para sobrevivência, não para o luxo. É o meu amigo que mais desperta cedo, às 5h, com os galos cantando no sangue, e dorme antes das 22h, acreditando no frescor das janelas abertas. A roça não o abandonou, espera o sol a postos, com caneta em punho.
Já bebemos cachaça lado a lado, já fechamos botecos com as saideiras, já recolhemos os farelos com as mãos na toalha-de-plástico das mesas, já saboreamos o seu prato predileto materno, taioba com angu, já atravessamos uma amizade de vinte e cinco anos, mas hoje, Luiz, tirei o meu tempo para dizer que te amo e que sempre será o principal responsável por mudar a minha biografia para pertim de suas raízes. Vê o paradoxo generoso do destino: você migrou e eu vim no seu lugar. Vim para cá para ser seu irmão de verdade, nascer de novo no ventre de sua terra.
Fonte: O Tempo/ Fabrício Carpinejar /Foto: Hélvio

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